Prof. Dr. Luiz Carlos Santuario

O que é o tempo?

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O QUE É O TEMPO?
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                   Respire fundo e deguste as pérolas-palavras do confúcio galponeiro e grande payador gaúcho!

 

                               DO TEMPO  !

 

 

                                      Jayme Caetano Braun *

 

 

         O tempo vai repontando

         O meu destino pagão

         Vou tenteando o chimarrão

         Da madrugada clareando

         Enquanto escuto estralando

         O velho brasedo vivo

         Nesse ritual primitivo

         Sempre esperando, esperando...

É a sina do tapejara

         Nós somos herdeiros dela

         Bombear a barra amarela

         Do dia quando se aclara

         Sentir que a mente dispara

         Nos rumos que o tempo traça

         Eu me tapo de fumaça

         E olho  o tempo veterano

         Entra ano e passa ano

         Ele fica a gente passa

         Que viu o tempo passar

         Há muita gente que pensa

         Mas é grande a diferença

         Ele não sai do lugar

         A gente que vive a andar

         Como quem cumpre um ritual

         É o destino do mortal

         É o caminho dos mortais

         Andar e andar nada mais

         Contra o tempo, sempre igual.

 

 

 

         Tempo é alguém que permanece

         Misterioso impenetrável

         Num outro plano imutável

         Que o destino desconhece

         Por isso a gente envelhece

         Sem ver como envelheceu

         Quando sente aconteceu

         E depois de acontecido

         Fala de um tempo perdido

         Que a rigor nunca foi seu.

Pensamento complicado

         Do índio que chimarreia

         Bombeando na volta e meia

         Do presente no passado

         Depois sigo ensimesmado

         Mateando sempre na espera

         O fim da estrada é a tapera

         O não se sabe do eterno

         Mas a esperança do inverno

         É a volta da primavera.

Os sonhos são estações

         Em nossa mente de humanos

         Que muitas vezes profanos

         Buscamos compensações

         Na realidade as razões

         Onde encontramos saída

         Nessa carreira perdida

         Que contra o tempo corremos

         Já que, a rigor, não sabemos

         O que  haverá além da vida.

         Dentro das filosofias

         Dos confúcios galponeiros

         Domadores, carreteiros

 

         Que escutei nas noites frias

         Acho que a fieira dos dias

         Não vale a pena contar        

         E chego mesmo a pensar

         Olhando o brasedo perto

         Que a vida é um crédito aberto

         Que é preciso utilizar.

         Guardar dias pro futuro

         É sempre a grande tolice

         O juro é sempre a velhice

         E de que adiante este juro

         Se ao índio mais queixo duro

         O tempo amansa no assédio

         Gastar é o melhor remédio

         No repecho e na descida

         Porque na conta da vida não adianta saldo médio!

 

Jayme Caetano Braun (1924-1999) é um poeta gaúcho consagrado em todo o Brasil, lido também no Uruguai, no Chile e na Argentina. Repentista como ninguém, escreveu oito livros de poesia carregada de telurismo, entre eles "Potreiro de guachos", "Brasil Grande do Sul", "De fogão em fogão", "Pátria – Fogões – Legendas", "Bota de Garrão", "Galpão de estância" e o melhor de todos: "Paisagens perdidas. Ninguém improvisa melhor do que Caetano Braun: rima e métrica andam de mãos dadas com os sentimentos. Nos seus últimos poemas manifesta uma nítida crença na imortalidade. É um Sócrates guarani que fala com voz rouca, exprimindo sabedoria em forma de poesia: "A esperança do inverno é voltar a primavera".

 

 

 

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