Respire fundo e deguste as pérolas-palavras do confúcio galponeiro e grande payador gaúcho!
DO TEMPO !
Jayme Caetano Braun *
O tempo vai repontando
O meu destino pagão
Vou tenteando o chimarrão
Da madrugada clareando
Enquanto escuto estralando
O velho brasedo vivo
Nesse ritual primitivo
Sempre esperando, esperando...
É a sina do tapejara
Nós somos herdeiros dela
Bombear a barra amarela
Do dia quando se aclara
Sentir que a mente dispara
Nos rumos que o tempo traça
Eu me tapo de fumaça
E olho
o tempo veterano
Entra ano e passa ano
Ele fica a gente passa
Que viu o tempo passar
Há muita gente que pensa
Mas é grande a diferença
Ele não sai do lugar
A gente que vive a andar
Como quem cumpre um ritual
É o destino do mortal
É o caminho dos mortais
Andar e andar nada mais
Contra o tempo, sempre igual.
Tempo é alguém que permanece
Misterioso impenetrável
Num outro plano imutável
Que o destino desconhece
Por isso a gente envelhece
Sem ver como envelheceu
Quando sente aconteceu
E depois de acontecido
Fala de um tempo perdido
Que a rigor nunca foi seu.
Pensamento complicado
Do índio que chimarreia
Bombeando na volta e meia
Do presente no passado
Depois sigo ensimesmado
Mateando sempre na espera
O fim da estrada é a tapera
O não se sabe do eterno
Mas a esperança do inverno
É a volta da primavera.
Os sonhos são estações
Em nossa mente de humanos
Que muitas vezes profanos
Buscamos compensações
Na realidade as razões
Onde encontramos saída
Nessa carreira perdida
Que contra o tempo corremos
Já que, a rigor, não sabemos
O que
haverá além da vida.
Dentro das filosofias
Dos confúcios galponeiros
Domadores, carreteiros
Que escutei nas noites frias
Acho que a fieira dos dias
Não vale a pena contar
E chego mesmo a pensar
Olhando o brasedo perto
Que a vida é um crédito aberto
Que é preciso utilizar.
Guardar dias pro futuro
É sempre a grande tolice
O juro é sempre a velhice
E de que adiante este juro
Se ao índio mais queixo duro
O tempo amansa no assédio
Gastar é o melhor remédio
No repecho e na descida
Porque na conta da vida não adianta saldo
médio!
* Jayme
Caetano Braun (1924-1999) é um poeta gaúcho consagrado em todo o Brasil, lido também no Uruguai, no Chile e na Argentina.
Repentista como ninguém, escreveu oito livros de poesia carregada de telurismo, entre eles "Potreiro de guachos", "Brasil
Grande do Sul", "De fogão em fogão", "Pátria – Fogões – Legendas", "Bota de Garrão", "Galpão de estância" e o
melhor de todos: "Paisagens perdidas. Ninguém improvisa melhor do que Caetano Braun: rima e métrica andam de mãos dadas com os sentimentos. Nos seus últimos
poemas manifesta uma nítida crença na imortalidade. É um Sócrates guarani que fala com voz rouca, exprimindo sabedoria em
forma de poesia: "A esperança do inverno é voltar a primavera".